segunda-feira, 4 de maio de 2009

Na corda bamba

Com verba estatal reduzida e escassez de patrocínios privados, o cinema brasileiro corre o risco de entrar em crise.

Se, historicamente, as pessoas consomem mais entretenimento nas épocas de crise, a retração dos patrocínios privados começa a afetar severamente a produção de filmes nacionais. Segundo a Ancine – Agência Nacional de Cinema, 30% dos recursos do setor vinham de empresas particulares, mas, temem os produtores, esta quota deverá ser significativamente reduzida em 2009.

O crescimento econômico dos últimos anos vinha motivando empresas privadas a apoiar, cada vez mais, o cinema brasileiro. Como incentivo, os patrocinadores valem-se das Leis do Audiovisual e Rouanet, que permitem deduções fiscais do capital investido. Mas, aparentemente, tais empresas estão segurando suas rédeas por precaução, optando por mantendo dinheiro em caixa para atravessar um período que não promete ser fácil. Para completar, as grandes estatais, responsáveis pela maior parte dos financiamentos, também reduziram ou encerraram suas ações; apenas em 2008, a Petrobras deixou de aplicar R$ 20 milhões no mercado audiovisual e o BNDS (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) ainda não definiu quais projetos serão promovidos este ano.

A produtora Iafa Britz, sócia da Total Entertainment e uma das diretoras do Festival do Rio, afirma que “a indústria de cinema brasileira ainda não é auto-sustentável, nós precisamos muito contar com o apoio do setor privado”. Apesar de ter conseguido arrecadar R$ 16 milhões para rodar Lula, o Filho do Brasil, o produtor Luiz Carlos Barreto confirma a crise que se instala, “as captações privadas caíram cerca de 70%”.

Caminho alternativo

Paralelamente, o cinema brasileiro vive um bom momento no panorama mundial. Como exemplo, quatro produções nacionais participaram, em 2008, de importantes festivais: Ensaio Sobre a Cegueira e Linha de Passe disputaram a Palma de Ouro em Cannes, enquanto Veneza selecionou, para concorrer ao Leão de Ouro, Terra Vermelha e Plastic City. Em comum, além da visibilidade mundial, há o fato de que todos são co-produções internacionais.

O Brasil já mantém acordos com Alemanha, Espanha, França, Canadá, Argentina e Chile, adicionalmente às parcerias com o Convênio de Integração Cinematográfica Ibero-Americana e o Acordo Latino-Americano de Co-Produção Cinematográfica, além de estar em negociação com Israel, Índia e China.

Entre os benefícios de uma produção conjunta, está a divisão de tarefas práticas e criativas, desde a captação de recursos até a produção e distribuição do filme em si. A dupla – ou múltipla – cidadania de uma produção assegura acesso a mecanismos públicos de financiamento e vantagens de comercialização, aumentando as garantias de retorno financeiro. “A existência de um mercado internacional foi o que fez com que os filmes se tornassem rentáveis – afinal, eles deram mais dinheiro fora do Brasil”, declarou Karim Aïnouz, diretor das co-produções Madame Satã e O Céu de Suely, em entrevista ao portal de cinema Filme B.

Apesar do processo complexo e de eventuais discrepâncias culturais, a co-produção pode ser, principalmente em tempos de recessão, uma alternativa para manter a máquina cultural brasileira em movimento.

Co-produções para ficar de olho:
Terra Vermelha (Itália)
No Meu Lugar (Portugal)
Dores, Amores e Assemelhados (Portugal)
Budapeste (Portugal, Hungria)
A Festa de Menina Morta (Portugal, Argentina)
Café de Los Maestros (Argentina)
Olhos Azuis (Argentina)
31 Minutos (Chile)
Gringos no Rio (França)
Última Parada – 174 (França)
Entre a Dor e o Nada (Espanha)
Minhocas (Canadá)
Federal (Colômbia, Hungria)
Plastic City (Hong Kong)
Tamarindo (Índia)

* Fontes: Filme B (
www.filmeb.com.br) e Ancine (http://www.ancine.gov.br)

(Publicado na revista VER VIDEO / Edição 190 / Maio de 2009)

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